Muitas pessoas supervalorizam a estética corporal, a beleza. Gastam o que têm e o que não para alcançarem esses objetivos que, de fato, considero vãos. Frívolos, efêmeros, superficiais. Não sei, mas beleza parece-me ser um meio e não um fim digno pra almejar-se. Quero dizer, beleza é apenas um meio de conseguir outras coisas. Afeto, carinho, amor, prestígio, orgulho, sucesso... Não digo que não devamos importar-nos com a aparência. É óbvio que devemos, mas não ao ponto de virar uma neurose. Ainda mais porque isso tudo está intimamente ligado com auto-estima, bem estar, etc... Ainda assim, o corpo é material e corruptível. Se algum ser amar somente pela beleza irá, da mesma forma, deixar de amar quando ela esvair-se.
É por isso que devemos nos apegar em finalidades não tão passageiras. Prender-se demais às coisas materiais ou tirar demais os pés do chão, pode não ser bom. Bem, quando te soltarem o tombo será grande.
Mas não é sobre esse tipo de preocupação para com o corpo que pretendo tratar. Atípico é refletir sobre a nossa fragilidade enquanto meros mortais... Tão suscetíveis e sujeitos às doenças, males do corpo humano. Trata-se da dependência em relação à matéria física, instrumento da mente, morada da alma.
O mais deprimente é que, quase sempre, só valorizamos devidamente as coisas na hora em que as perdemos. O homem costuma dar-se conta do valor inestimável dos bens (digo aqui os não materiais) em situação de risco, risco de perdê-los. Tudo pode mudar em poucos segundos. Frente às novas realidades, você pode começar a ver tudo de uma outra forma.
O homem, capaz de tanta brutalidade e, ao mesmo tempo, grandes feitios. Alguém que pode matar milhares com uma bomba atômica em poucos minutos pode também escrever Os lusíadas. Um ser tão frágil e vulnerável à naturalidade, pelo menos enquanto não consegue virar Deus (embora venha tentando)...
Às vezes, quando você revê aquele amigo ou parente que não vê há tempos percebe que sua estima por ele em nada mudou. Acredito que o tempo não leva junto os sentimentos e os valores verdadeiros. Só as coisas mais profundas e verdadeiras não passarão. E eu acredito nessas coisas. Vida após a morte? Sim, na minha opinião. Seria muito mesquinho se fosse só isso.
Doe órgãos, por exemplo. Seu corpo vai virar pó, porque não ajudar? Riqueza? Você também não irá levá-la para o túmulo. Falta o sentimento de igualdade, empatia e, porque não, um pouco socialista nos indivíduos (refiro-me aqui ao príncípio teórico socialista, não o sistema distorcido que ainda remanesce).
Dar-se conta do valor do corpo é dar-se conta do valor da vida. É valorizar o que passa despercebido, é ter compaixão para com outro, é comoção, é ajuda, talvez até um mundo melhor. É preciso perceber que o “olhar só pra dentro é o maior desperdício”.