Mudanças tornaram-se uma constante, em intervalos de tempo cada vez menores... Pela primeira vez em muitos anos o HD do meu computador queimou e eu perdi nada menos que tudo. Documentos, trabalhos, fotos pessoais que nunca havia colocado em sites de relacionamento, uma infinidade de coisas intangíveis, mas que remetem lembranças, sentimentos e significados muito concretos. O que apreendi disso... Que deveria, pois, ser mais precavida? Não. Mas sim que devo lidar naturalmente com tais mudanças. A mente humana deve ser aberta, receptível e maleável. Tentar sistematizar a vida como uma função matemática ou algo previsível e sequencial é uma tarefa estéril. Viver segundo um modelo padrão e metódico regride a alma ao ponto de torná-la incapaz de aceitar novas realidades. Não há nada tão volúvel ou caótico quanto a vida humana, seja pela fatalidade do destino, seja por condições externas sobre as quais não temos controle ou seja pelo próprio comportamento humano instável. As nossas escolhas corriqueiras e aparentemente pouco importantes determinam o futuro em face ao acaso.
Essa linha de pensamento, é claro, inspirada na teoria do caos exemplifica perfeitamente o fenômeno da imprevisibilidade. E é a partir daí que se torna possível identificar que não seria nenhuma força mística e sim nós mesmos os autores e os responsáveis pelo nosso próprio destino. Ao usar o termo “nós” entende-se de forma generalizante e atemporal, ou seja, todo e qualquer ser humano que habitou, habita ou venha habitar o mesmo planeta em questão. Há tempos o homem muda o ambiente ao seu redor e pequenas alterações culminam em resultados de proporções incontroláveis e imprevisíveis a longo prazo. Engenharia genética, trangênicos, melhoramento de seres naturais, alteração no equilíbrio, mudança na paisagem natural, extração drástica de recursos sem reposição, mentalidade capitalista... Tudo isso e mais resulta no caos que hoje permeia a realidade. Uma sociedade de risco. Mudança nos valores, nos hábitos e crenças formaram uma sociedade melhor em alguns aspectos e pior em outros. Nada gera-se do nada. Nossos ancentrais distantes ou nem tanto forjaram muito do que vivemos hoje. E às vezes nem nos damos conta que assimilamos tantos hábitos, formas de vida, de educação, padrões de comportamento legados do passado. Usufruímos de artefatos desenvolvidos, passados de geração em geração, aperfeiçoados. É como se, ao nascer, caíssemos de paraquedas e fôssemos como um vaso de barro moldado segundo a cultura do período e da região. Até que ponto seríamos livres ou seríamos nós mesmos? Tudo evolui pela ação intencional ou não das pessoas. Aperfeiçoamento só é precedido pela iniciativa, evolução, pela mudança. Só dessa maneira o homem deixa sua própria marca, a prova de sua capacidade intelectual por si mesmo. Exemplos de grandes homens, como Galileu Galilei, Leonardo da Vinci e vários outros que ousaram desafiar o que convencionou-se denominar de certo ou errado, possível ou impossível. Mulheres hoje usam calças poque Marlene Dietrich foi a primeira a fazê-lo por volta de 1920. Listras e estampas de roupas estão em alta na “moda” só porque outros disseram que estão, num vai e vem de épocas e tendências.
Um exemplo alegórico: por pedir informação para alguém na rua que te orienta erroneamente sobre o local da sua entrevista de emprego, a qual você perde mas que te levaria para outro país, onde conheceria outras pessoas, teria outros amores, filhos e netos diferentes... Enfim pequenas alterações corriqueiras trazem consequências desconhecidas no futuro. Muitos atribuem aos fatos indejáveis, como catástrofes, doenças, etc, a vontade de um ser superior, como Deus, a simples ordem ou ciclo da natureza ou ainda um destino previamente escrito ao qual todos estão fadados. Contudo, vítimas ou não do “efeito borboleta”, a realidade não nos pertence por completo, ela é compartilhada como uma teia que envolve tudo que é vivo e não-vivo em um sistema nada linear. O ser humano deve portanto familiarizar-se com a certeza irrefutável de que está subordinado ao bel-prazer do “acaso”, ou em outras palavras, à uma paisagem determinada por incalculáveis fatores e influenciada por todos os seres, inclusive por você e seu poder de mudar o que será escrito.
Um comentário:
Adorei Bianca, vc escreve muito bem *-*
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